Frida


Com uma fotografia belíssima e uma direção de arte, com cenários e figurinos sensacionais e incríveis, Frida (2002) consegue transmitir a emoção necessária à história dessa mexicana guerreira, talentosa e à frente do seu tempo - mesmo deixando a desejar em vários momentos. A trama não aborda com profundidade a dor e o intenso sofrimento da pintora, vítima de um acidente de ônibus, em 1925, que, por pouco, não a matou - ela teve vários cortes no corpo, quebrou a bacia, a coluna e teve um dos pés esmagados, além do corte profundo causado por uma barra de ferro que atravessou seu corpo e saiu pela vagina. Também  não aborda a poliomelite que teve na infância e lhe deixou uma das pernas mais curta. Talvez isso se deva ao fato de ter sido um projeto difícil de ser realizado e Salma Hayek, produtora e protagonista do longa, ter tido dificuldades financeiras e de filmagem

Frida Kahlo e Diego Rivera

Salma (conterrânea de Frida) é grande admiradora do trabalho da artista, porém o filme se perde na história, concentrando-se apenas no romance de Frida e Diego Rivera (Alfred Molina), um dos mais importantes artistas mexicanos, ícone do movimento muralista. Era da geração de artistas funcionários do governo mexicano, que patrocinava expressões engajadas de arte, empenhadas em retratar o cotidiano da classe trabalhadora. Tal movimento chamou a atenção do resto do mundo e garantiu a Rivera uma sólida carreira internacional, que consequentemente deu projeção também à obra de sua esposa no exterior. Ainda garantiu a ela uma extensa rede de contatos que eventualmente se convertiam em casos extraconjugais - dos quais, Rockefeller e Trotski (teórico revolucionário russo). 


Infelizmente a obra audiovisual não consegue transmitir quem realmente foi essa grande artista, com toda a vivacidade e talento, que possuía uma personalidade forte e determinação em seu sangue. Não aceitava que ninguém mandasse em sua vida, atrapalhasse seus objetivos ou tentasse controlá-la. Na moda também lançou tendências com seu estilo único e colorido que contrapunha a moda européia usada pelas damas mexicanas da época, que no longa é expressado por figurinos coloridos e bem-feitos. Suas pinturas eram consideradas surrealistas, porém ela própria afirmava que não eram da corrente surreal, pois ela não pintava sonhos e sim sua realidade, que foi de luta, sofrimentos mas também de muito amor e conquistas. Com certeza foi uma das maiores pintoras do mundo e transpôs essa influência para muito além da arte, alcançando ideiais políticos, filosóficos para as mulheres e para toda uma geração. O que vale mesmo no filme é a montagem deliciosamente inovadora. A diretora Julie Taymor ressalta o caráter autobiográfico, quase ególatra dos retratos "surrealistas" de Frida. Brinca um pouco com a linguagem: há uma sequência com cenas de Diego como King Kong em Nova York e outra com caveirinhas marionetes logo após o acidente da pintora, durante seu coma, que dão um ar de modernidade ao filme.
As passagens das telas para as cenas, feitas digitalmente, também são pontos positivos do longa, que se atém a contar uma história rápida da pintora (apesar dos 118 minutos de duração), mostrando seu lado bissexual, beberrão e boêmio.
Enfim, a história é contada através dos trabalhos de Frida, com animações imersas no meio da trama, tudo bem colorido e encantador aos olhos do espectador.



Curiosidades:
- A casa de Diego e Frida que possuía duas alas, sendo que Frida morava na parte azul que aparece no filme realmente é a casa verdadeira, onde o casal conturbado vivia.
- Concorreu a seis Oscars (Melhor Atriz, Melhor Direção de Arte, Figurino, Maquiagem, Trilha Sonora e Canção). Ganhou dois, nas categorias de melhor maquiagem e melhor trilha sonora.

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