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Antropóloga Telma Camargo doa acervo sobre o Desastre com o Césio-137

Ano: 2002. Entrega de cópia da tese de Telma Camargo (de pé) à Associação das Vítimas do Césio-137.


Filmer, amanhã, dia 18 de março de 2026, estreia a minissérie brasileira Emergência Radioativa na Netflix, baseada no trágico acidente com o Césio-137 em Goiânia (minha terra natal e onde vivo até hoje), em 1987. 

A produção fictícia dramatiza a contaminação ocorrida após a abertura de uma cápsula de radioterapia, focando na corrida contra o tempo e heróis anônimos.

Com isso, quero deixar uma dica pra você que quer uma oportunidade de se aprofundar sobre o tema após assistir a série, pelo olhar da própria população goianiense e com fatos verídicos, por meio dos arquivos de Telma Camargo, que desde 1987 colhe as histórias de vida das pessoas diretamente envolvidas no desastre. Ela doou seu acervo para o LUMINAV UEG (Universidade Estadual de Goiás).

Desde os primeiros meses após o acidente, em 1987, Telma assumiu o compromisso de escutar, registrar e compreender as experiências das vítimas, dos profissionais envolvidos na contenção e das instituições mobilizadas em torno do ocorrido. Sua pesquisa etnográfica, realizada ao longo de diferentes períodos (1987–1989; 1996–1999; 2004–2005), constituiu um trabalho rigoroso de observação participante, entrevistas sonoras e audiovisuais, coleta documental e reflexão crítica. Mais do que reunir fontes, Telma construiu um campo de interlocução sensível, reconhecendo nas narrativas das vítimas não apenas dados, mas experiências marcadas por dor, estigma, luta por reconhecimento e reivindicação de direitos.

A doação que o LUMINAV recebe — oficialmente intitulada Desastre Radioativo com o Césio-137 – Goiânia / Coleção Telma Camargo da Silva — é a expressão concreta desse compromisso. O acervo reúne centenas de fitas cassete com entrevistas, registros audiovisuais em VHS, Video8 e DVD, fotografias pesquisadas em arquivos institucionais, transcrições em disquetes, programas de rádio e televisão, além de documentos de campo que contextualizam minuciosamente cada etapa da investigação. Trata-se de um conjunto documental de inestimável valor histórico, antropológico, político e, sobretudo, humano.

Ao contextualizar cuidadosamente suas fontes, indicar financiamentos, instituições envolvidas e percursos metodológicos, Telma nos ensina que preservar é também narrar a história da própria pesquisa. Seu gesto de doação é, portanto, um ato de responsabilidade pública: ele transforma uma trajetória individual em patrimônio coletivo, abrindo caminhos para novas gerações de pesquisadoras e pesquisadores.


Professora Geórgia Cynara recebe doação do acervo das mãos de Telma Camargo


Para o LUMINAV, laboratório cuja equipe é formada majoritariamente por mulheres — jovens pesquisadoras comprometidas com a preservação audiovisual e a memória social — receber esta coleção é uma honra e também uma missão. Cuidar desse acervo significa zelar por testemunhos que atravessam o tempo; significa manter viva a memória das vítimas; significa reconhecer o trabalho de uma mulher que fez da escuta um gesto político. Neste março, Mês da Mulher, celebramos em Telma Camargo da Silva a força das mulheres na ciência, na universidade pública e na construção da memória social. Celebramos sua coragem intelectual, sua ética no trato com as pessoas afetadas pelo desastre e sua decisão generosa de confiar ao LUMINAV a guarda desse patrimônio.



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