O uso de animais no audiovisual e no entretenimento

Cena do filme Bem-Hur (1959). Divulgação

O uso de animais no audiovisual e no entretenimento é um assunto que não é muito discutido, mas que deve ser colocado em pauta, afinal há muitos maus tratos de animais em filmes, séries e no entretenimento, durante as gravações, propositalmente ou não, a fim de garantir a tão sonhada “cena perfeita”. Entre alguns casos estão Jesse James (1939), onde um cavalo foi jogado de um penhasco para a filmagem de uma cena, Ben-Hur (1959), em que quase 100 cavalos morreram durante as filmagens, Holocausto Canibal (1980), em que foram mortos uma tarântula, uma cobra, um quati, um porco, uma tartaruga e um macaco-de-cheiro em cenas horrendas.

 O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (2012) foi lançado mesmo após a denúncia sobre a morte de 27 animais, entre galinhas, ovelhas, cabras e cavalos e ainda fez mais de um bilhão de dólares em bilheteria, Quatro Vidas de Um cachorro (2017), onde um cachorro foi obrigado a entrar em uma água turbulenta para uma determinada cena e morreu afogado, e ainda a série Luck (2011), da HBO que tratava sobre corrida de cavalos, e foi cancelada após a informação de que quatro deles morreram durante a produção. Isso só para citar alguns, dentre centenas de outros.

Há ainda os filmes que além de terem animais em seus elencos, falam sobre os maus tratos de animais, como Dumbo, tanto a animação quanto o live action, Água Para Elefantes (2011), as franquias de Planeta dos Macacos, entre outros. Mas mesmo sendo para conscientizar sobre a causa, como garantir a segurança dos animais em set, e como realmente fazer a tão famosa frase “nenhum animal foi maltratado ou ferido durante as gravações” ser verdadeira? Existem cineastas que são contra, e também, especialistas que acham o uso de animais no audiovisual bastante temeroso. Nesta reportagem, vamos mostrar depoimentos de veterinários, ONGs, órgãos fiscalizadores e cineastas para analisarmos esta questão. 


Cena do filme Água para Elefantes (2011). Divulgação


Na visão dos órgãos responsáveis e especialistas

Veterinário Reikiano Ricardo Garé. Arquivo pessoal

O veterinário reikiano Ricardo Garé, que é especialista no tema e posta diversas matérias em seu site Reiki Veterinário (www.reikiveterinario.com.br) afirma que é contra o uso de animais em obras audiovisuais. “Eu discordo quando a gente tem o uso de uma outra espécie para uso nosso, sendo que a gente pode fazer isso de diversas formas, inclusive com computação gráfica. Tem ótimos filmes com computações gráficas maravilhosas com animais selvagens. O que eu concordaria é que um profissional de comunicação animal intuitiva ou telepática comunicasse com esse animal não-humano específico se ele quer ou não fazer aquilo e o que ele precisa para isso acontecer da melhor forma”. 

A veterinária Déborah Cristina Fogaça conta como pode ser feito o preparo do animal da melhor maneira possível antes de entrar em set. “De maneira geral, o adestramento de qualquer espécie animal e para qualquer finalidade é baseado na técnica de reforço positivo, na qual não é admitido punições ou qualquer tipo de agressão ao animal. No entanto, pensando no âmbito cinematográfico, é muito difícil afirmar que são utilizadas apenas as técnicas adequadas que respeitem o bem-estar animal, visto que não existe uma regulamentação ou fiscalização adequadas nesse sentido. Além disso, já foram denunciados inúmeros casos de maus-tratos durante filmagens, inclusive de renomados filmes”.


Veterinária Déborah Cristina Fogaça. Arquivo pessoal


E Déborah Cristina Fogaça finaliza com dicas do que pode ser feito durante a preparação do animal para que evite de acontecer algum acidente em set. “Além da escolha de profissionais especializados em comportamento animal, tanto para o treinamento quanto para o acompanhamento das filmagens, deve-se sempre considerar o respeito às liberdades e necessidades do animal. Isso requer muito mais empenho, em relação a tempo, estrutura física e profissional. É preciso ter em mente que, da mesma forma que se garante a segurança das pessoas, a segurança dos animais necessita ser ainda mais reforçada, pois os mesmos possuem instintos que, muitas vezes, mesmo com treinamento, não podem ser controlados”. 

E como a veterinária Déborah Cristina Fogaça afirmou, as leis para o uso de animais no audiovisual e no entretenimento são bem fracas. Conversamos com a delegada Lara Menezes, da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente (Dema) que informa como funciona o processo. “Antes de ter um animal em cena ou em um circo, por exemplo, é preciso ter uma autorização/licença do Ibama. Só aí então você pode ter o animal na produção”. 

A delegada Lara Menezes acrescenta ainda que “geralmente, quando vai produzir um filme, um produtor vai procurar cativeiros que são autorizados. Antigamente, tinha mais ocorrência de maus tratos de animais nessas situações, principalmente em circos. Hoje, a lei está mais ativa, principalmente para animais exóticos, que são mais complicados, como elefantes, tigres, girafas. Inclusive, muitos animais de circos foram resgatados em Goiás e levados para o zoológico de Goiânia, mas ainda assim morreram em massa, visto que esse tipo de situação priva um animal do seu habitat natural, então adoecem muito rápido. Agora com animais domésticos já é outra história. Há muito mais dificuldade de fiscalização e quebra de leis”.

Questionado sobre quais animais podem atuar no audiovisual e no entretenimento, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) esclarece que “não há norma específica que regule o uso de animais silvestres nesses casos. No entanto, o art. 29 da Lei nº 9.605/98 de crimes ambientais informa que é crime o uso de espécimes silvestres em cativeiro ou semiliberdade sem autorização específica do órgão ambiental competente (estadual se for veiculação local e federal caso seja nacional). Nesse contexto, também é exigido que o animal utilizado tenha origem legal, ou seja, tenha sido adquirido de criadouro autorizado pela secretaria estadual de meio ambiente, possua anilha ou microchip e esteja acompanhado de nota fiscal”.

E finaliza “o uso de espécies silvestres deve ocorrer sob a ótica da educação ambiental não formal, com transmissão de mensagem ambiental adequada ao telespectador, conforme previsto no art. 13 da Lei n° 9.795/1999. Além disso, deve ser observado criteriosamente o bem-estar do animal durante sua utilização. Maus-tratos, seja em relação à espécimes silvestres ou domésticos, é conduta tipificada no art. 32 da Lei de crimes ambientais. Não há restrição para uso da imagem de animais em vida livre exceto em apologia à crimes como caça ou tráfico, por exemplo”.


Bruna Teixeira. Voluntária da ONG Santuário São Francisco. Arquivo pessoal

É aí que entra o importante trabalho das Organizações Não Governamentais (ONGs) de animais, principalmente no resgate de animais maltratados através de denúncias. Bruna Teixeira, voluntária da ONG Santuário São Francisco afirma que as denúncias podem ser feitas pelas redes sociais ou WhatsApp, e então acontece o resgate.


Lívia Borges, voluntário da ONG Abrigo dos Animais Refugados. Arquivo pessoal

Lívia Borges, voluntária da ONG Abrigo dos Animais Refugados acrescenta que o tratamento para recuperação de animais que sofrem esse tipo de trauma é bem complexo. Tem animais que não gostam nem que coloquem a mão neles, eles gritam de medo e desespero. É difícil ganhar a confiança deles, por isso fazem um trabalho para tirar o trauma que tiveram, com muito carinho e muita paciência.


Na visão dos cineastas

Cineasta Carlos Daniel Vallada. Arquivo pessoal

Trazendo para o âmbito de quem realmente trabalha com cinema e audiovisual, o cineasta Carlos Daniel Vallada, vegano e defensor dos direitos dos animais, reitera que “o uso de animais em set pode ser substituído de diversas formas. Computação gráfica é uma delas. Porém, é uma solução viável apenas para produções com maior orçamento. Dependendo, bonecos animatrônicos, o que também não é uma solução barata, podem funcionar perfeitamente. Produções de menor orçamento podem ir para um caminho mais lúdico, com bonecos representando os animais. Uma outra possibilidade, ainda, em muitos casos, é exclui-los do roteiro, mesmo”.

O cineasta Diogo Gomes acrescenta “parto do princípio de que tudo que acontece num set de filmagem, deve estar sob o controle do diretor, no sentido que é ele o responsável pelo resultado final da obra. Neste sentido, qualquer animal num set, deverão ser tomadas todas as precações, para que no momento solicitado a do animal, sua participação possa ser cumprida como foi pré-estabelecido. O princípio básico é ter um especialista só para o animal. Este profissional deve expor para a produção as necessidades que ele julgar importantes para que o animal não seja maltratado e proporcione o resultado desejado”.


Cineasta Diogo Gomes. Arquivo pessoal 


Perguntado ainda como é feito o processo de atuação do animal, Diogo Gomes explica “a posição do diretor é mais técnica do que criativa. Esta função o diretor deve delegar ao amestrador do animal, é ele quem deve indicar o que o animal deve fazer. O diretor pode até pedir para repetir uma cena com a participação do animal, mas em muitas situações, filma-se mais do que o necessário, muitas vezes sem critérios. Evidente que um animal domesticado, como um cachorro, gato, a princípio é bem mais fácil, mas quando um ator/atriz tem que lidar com um réptil peçonhento, tipo cobra ou escorpião (mesmo que deles foram extraídas as presas ou o veneno), os riscos de um incidente se elevam”.

E questionado em como fazer para evitar acidentes e maus tratos em uma produção, Diogo Gomes relata “isso é inerente ao ofício e a atividade. Tudo deve ser previsto, planejado ao ponto de os riscos diminuírem ao máximo suportável. A questão dos maus tratos é muito delicada e, no meu caso, a melhor solução é não os incluir nas histórias a serem filmadas. Tem gente que dopa os animais para que os maus tratos não sejam percebidos pela crítica ou pelo público. 

Diogo Gomes relata ainda que “no meu filme Romaria, Centenário de Fé, em quase toda a trajetória da narrativa, existem animais. Não houve um incidente por menor que poderia ser, e dentro da narrativa, esta discussão foi abordada, já que os romeiros se deslocam por uma extensão territorial bastante significativa, montados em animais. No entanto, para ilustrar uma situação, eu incluí uma cena onde dois animais se agridem, por puro instinto”.


Cena do filme Romaria, Centenário de Fé. Arquivo pessoal do diretor Diogo Gomes

E, para finalizar,  Diogo Gomes refuta a ideia de que computação gráfica substitui o resultado final em uma cena com um animal “do meu ponto de vista, as cenas por computação gráfica, são cenas frias, sem atmosfera, clima, os sentidos se perdem nos detalhes, nos jeitos e trejeitos dos humanos, no ser diferente de cada um e nesta diferença, eles são iguais, coisa que o digital, em quase nada contribui com isso”. 


Douglas Oliveira gravando com animais na África. Arquivo pessoal


Douglas Oliveira, diretor de fotografia e cineasta, que já trabalhou em documentários com animais na África, entre eles leões, zebras e gnus, também concorda que não dá para substituir o animal por computação gráfica. “Em uma cena ou outra, até que dá, mas o animal passa o real. Embora a computação gráfica tenha evoluído demais nos últimos cinco anos, ainda não se compara com o resultado de filmar com o animal de verdade. E ainda vão levar muitos anos até que realmente consiga substituir o resultado final do uso de animais em filmes”. 

Douglas filmou vários documentários com os animais em seu habitat natural, respeitando o espaço, e sem exigir uma atuação deles. Foi de forma documental, e ele finaliza dizendo que foi uma verdadeira aventura.


Douglas Oliveira gravando com animais na África. Arquivo pessoal

Visto todos os lados, o que se conclui é que daqui alguns anos teremos tecnologia o suficiente para substituir o resultado que um animal traz para um filme. Até lá, é importante fazer o máximo para que não haja maus tratos de animais em obras audiovisuais e de entretenimento. Se souber de algo, denuncie. 



BÔNUS

10 filmes com protagonistas animais:

1-Meu Cachorro Skip (2000)

2-Lassie (tem várias versões)

3-Marley & Eu (2008)

4-Sempre Ao Seu Lado (2009)

5-101 Dálmatas – O Filme (1996)

6-Babe – O Porquinho Atrapalhado (1995)

7-Beethoven, O Magnífico (1992)

8-Free Willy (1993)

9-Um Gato de Rua Chamado Bob (2016)

10-Cavalo de Guerra (2011)


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