“Spotlight – Segredos Revelados” e as Teorias do Jornalismo



Spotlight – Segredos Revelados (EUA,2015) retrata a importância do jornalismo investigativo, sério e mais independente na denúncia de casos relevantes e importantes, não à toa levou o Oscar e grande parte das premiações de 2016. Um longa muito bem construído, com bons personagens, roteiro bem amarrado e o jornalismo como protagonista.

O filme aborda com propriedade duas importantes questões: o papel do jornalismo em nossa sociedade e os abusos sexuais contra menores cometidos por padres da Igreja Católica.

Dirigido por Tom McCarthy, Spotlight  - Segredos Revelados apresenta uma trama baseada em fatos reais, onde em 2001, uma equipe de jornalistas investigativos do jornal The Boston Globe, a mando de seu editor-chefe, decide apurar as suspeitas de que a cúpula da Igreja de Boston estaria acobertando casos de pedofilia envolvendo sacerdotes católicos.

É a partir dessa história que o espectador é convidado a conhecer os bastidores da redação de um dos jornais que já havia sido um dos mais influentes dos Estados Unidos.

Com o The Boston Globe em crise financeira e sob o comando de um novo diretor, há bastante tensão entre os jornalistas do veículo. Porém, o diário mantém uma unidade especial – chamada de Spotlight – para trabalhar em pautas investigativas, que demandam um enorme trabalho de apuração e tempo para checar todas as informações, sendo, na verdade, o seu grande trunfo. 

A investigação jornalística da trama vai então, cuidadosamente e com uma narrativa paciente, desvendando como os líderes da Igreja de Boston protegeram dezenas de padres das acusações de abusos sexuais contra menores ao longo de décadas com aliados na justiça.

O longa-metragem constrói uma atmosfera atraente para levantar a discussão de um assunto tão pesado.  E, apesar de se passar no começo dos anos 2000, o tema, infelizmente, ainda permanece bastante atual, com esta prática ainda acontecendo em todo o mundo. Inclusive, quando assumiu o poder no Vaticano, em 2013, o Papa Francisco formou uma comissão especial para tratar das acusações de abuso sexual cometidas por sacerdotes e autorizou o julgamento de bispos que acobertam os padres acusados de pedofilia.



O maior destaque da trama é a forma como aborda o trabalho jornalístico, mostrando como uma imprensa livre e atuante é um dos instrumentos fundamentais das sociedades democráticas, sendo uma verdadeira aula de jornalismo investigativo. Além disso, aborda com maestria a maioria das Teorias do Jornalismo.

A primeira Teoria do Jornalismo notada é a Teoria Organizacional, que diz que as notícias são como são por conta da determinação das empresas jornalísticas. E, mesmo a ideia da reportagem de denúncia contra a pedofilia dos padres católicos, serem dos repórteres, partiu da Spotlight a determinação de irem até o fim e noticiar em primeira mão esse caso, inclusive para levantar a audiência do jornal que estava em crise.

A outra Teoria do Jornalismo ilustrada no filme é a Teoria do Gatekeeper ou Teoria da Ação Pessoal, que afirma que as notícias são como são por conta do poder de ação, de definição do jornalista. Ou seja, os repórteres da Spotlight tomaram a ação de correr atrás desse furo, dessa notícia. Antes de tudo, foi uma decisão deles de correr atrás dela, mesmo que sejam empregados e tenham recebido ordens de seus superiores, eles têm um poder de decisão.

A Teoria da Espiral do Silêncio tem a ideia central de que os indivíduos omitem sua opinião quando conflitantes com a opinião dominante devido ao medo do isolamento, da crítica, ou da zombaria. Os agentes sociais analisam o ambiente ao seu redor, e ao identificar que pertencem à minoria, preferem se resguardar para evitar impasses. Esse comportamento gera uma tendência progressiva ao silêncio denominado espiral. A mídia ao também divulgar ideias e notícias de acordo com a maioria, continua esta espiral do silêncio. Em Spotlight, essa teoria é quebrada ao ter a notícia da pedofilia dos padres exposta, o que antes era ocultada, negada e calada por grandes líderes da igreja.

A Teoria do Agendamento propõe a ideia de que os consumidores de notícias tendem a considerar mais importantes os assuntos que são veiculados com maior destaque na cobertura jornalística (incluindo tanto meios impressos quanto eletrônicos). Assim, no Agenda-setting, as notícias veiculadas na imprensa, se não necessariamente determinam o que as pessoas pensam sobre determinado assunto, são bem-sucedidas em fazer com que o público pense e fale sobre um determinado assunto. Então, em Spotlight – Segredos Revelados, quando a notícia da pedofilia dos padres estourou, a população só falava nisso. Até hoje essa notícia repercute, não é à toa que virou um filme, e premiado. É um assunto que gerou boom.



E, para finalizar, a última notícia presente nesta obra audiovisual em questão é do Newsmaking, a teoria do jornalismo mais completa e bem amarrada. Ela pressupõe que as notícias são como são porque a rotina industrial de produção assim as determina. Há superabundância de fatos no cotidiano. Sem organização do trabalho jornalístico é impossível produzir notícias. A realidade é construída a partir do que o jornalismo divulga, apresenta. E, com Spotlight e a organização de seus repórteres foi possível expor este fato tão importante para o mundo, um crime que estava há anos escondido e sendo acobertado na justiça. Afinal, o jornalismo deve estar sempre a serviço da sociedade, e Spotlight – Segredos Revelados é um excelente filme para se entender melhor o mundo jornalístico, suas teorias e seus trâmites.

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